Monges-Celebridades! Será que o reconhecimento das cervejas trapistas atrapalhará a filosofia dos monges?

29.09.2014

As cervejas trapistas estão entre as melhores do mundo em quase todas as avaliações existentes.

O número de pessoas que eram capazes de escrever e armazenar conhecimentos na antiguidade era muito pequeno, concentrando estas tarefas nos mosteiros – comunidades criadas com o foco no mundo espiritual. Os monges sempre tiveram o costume de tomar cervejas em suas refeições. Adicione a este contexto o fato de que os monges buscavam a sua autossuficiência, produzindo o maior número de produtos dentro das abadias, inclusive cerveja, e você entenderá de onde vem a tradição e a curiosidade natural por esta bebida.

 

Apesar de todo o sucesso, ironicamente estas cervejas nunca buscaram a fama, nunca tiveram o foco de agradar um consumidor ou atender uma demanda local. O objetivo foi sempre produzir buscando a autossuficiência e ter uma fonte de renda para realizar o trabalho principal dos mosteiros: ajudar ao próximo.

 

 

Os monges nunca criaram campanhas mercadológicas para os seus produtos. A exclusividade e a dificuldade muitas vezes encontrada para a compra destas cervejas, o misticismo e a tradição das Abadias, criaram sem querer, uma marca muito forte e querida no mercado cervejeiro.

 

A demanda por este tipo de cerveja segue crescendo ao redor do mundo, seja pelo “boom” das cervejas Premium nas Américas ou pelo crescimento geral do mercado cervejeiro na Ásia.

 

A produção mundial das 11 abadias aprovadas pela Associação Trapista Internacional (ITA) gira em torno de 500.000 hectolitros/ano. A Abadia Saint-Rémy, dona da Rochefort, tem aproximadamente 9% do mercado, fatura EUR 9 milhões e lucra perto de EUR 1 milhão para manter vivos os seus projetos sociais.Mas as comunidades dos monges estão em declínio na Europa. A Abadia Notre Dame d’Orval chegou a contar com 35 monges e hoje tem apenas uma dúzia. Os números em Saint-Rémy são muito similares, com um agravante: não existe mais aspirantes. O monge mais novo no mosteiro já está chegando aos seus 50 anos e alguns já passaram de 80.

 

 

Nenhum dos mosteiros tradicionais consegue atender a demanda retraída que existe no mundo atualmente. A Orval, já decidiu que não vai entrar em nenhum novo mercado. A Rochefort só consegue atender um cliente na Ásia, apesar de pedidos frequentes vindos da região. 

 

A mais radical de todas estas cervejarias é a Westvleteren, situada dentro da Abadia de Saint Sixus e dona de algumas das cervejas mais cobiçadas do mundo. Em 1945, Abade Gerardus decidiu diminuir a produção na abadia por acreditar que a cervejaria estava tomando tempo demais dos monges e interferindo com o trabalho espiritual. 

 

Desde então, a cervejaria produz somente 5.000 hectolitros por ano. A abadia realiza vendas somente por telefone, possuem um alto controle para garantir que o produto não esteja sendo revendido e que o maior número de pessoas possa ter acesso a bebida. Só colocaram suas cervejas em supermercados uma vez em 2011 visando a obtenção de fundos para uma reforma na abadia.

 

 

Para atender a demanda crescente, os mosteiros teriam que realizar investimentos enormes para expandir as áreas produtivas e, inevitavelmente, teriam que utilizar mão de obra externa (devido ao pequeno número de monges aptos a trabalhar nas cervejarias), perdendo parte do controle da produção e indo assim diretamente contra um dos principais pilares que caracterizam uma cerveja como trapista.

 

Será que esta expansão também não iria contra a própria filosofia dos monges?

 

O verdadeiro cliente deveria ser Deus, certo? A cervejaria nunca deve ser o foco principal da abadia e sim um meio para ela arrecadar os fundos necessários para manter o imóvel e realizar os trabalhos sociais na comunidade local.

 

Esta expansão não levaria os monges para o caminho dos homens de negócios, os deixando sem tempo para serem realmente monges, ferindo mais um dos pilares que caracterizam a cerveja trapista?

 

Mas seria errado os monges buscarem uma renda maior para poder ajudar ainda mais as suas comunidades?

 

Só o tempo vai dizer o quanto o capitalismo pode interferir nas crenças filosóficas dos monges.

 

Fabricio Ataide

Amante da cerveja artesanal.

Fundador do Totally Beer,  um portal de promocao da cerveja artesanal ao redor do mundo

 

 

 

 

 

 

 

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