Sobre raízes e água - significados e visões particulares de um cervejeiro caseiro selvagem - Daniel Viviani

18.09.2014

 

Numa família italiana praticante, a premência pela opção ao vinho é natural como é o oxigênio para nossa respiração. Sendo produto da terra e cuja matéria prima vem sendo cultivada com extremo sucesso na Bota há uns três mil anos; o vinho é o campeão da preferência naquele amálgama que, pra facilitar, nos acostumamos a chamar de Itália. A relação da família com a cerveja sempre foi culturalmente marginal, na velha terra, pelo que experimentei nas vezes que estive lá, de norte a sul também é assim. Tal a forma, que a cerveja parece sempre ser a segunda opção, ora pela falta de fundos, ora pela inadequação do vinho à ocasião, ou ainda como uma adequação a uma circunstância maluca qualquer: Estamos “ricos”? Vinho; ainda que um dia tenha sido Mosteiro de garrafão ou Chateau Duvalier para as ocasiões especiais. A pindaíba está instalada? Cerveja. Estamos no em São Paulo? Vinho. Estamos em Santos? Cerveja. O jantar é apenas para a “famiglia”? Vinho. O jantar tem visitas “de fora”? Vinho e cerveja. Tem lógica? Obviamente não, se tivesse não estaríamos falando de oriundi; mas tem realidade. Minha experiência com cerveja começou na adolescência tardia, diferente do usual o álcool socialmente aceitável era o do vinho (com soda), cerveja era coisa de adulto. Nunca houve desprezo como alguém pode pensar ao ler isso, mas uma opção cultural. Cerveja era uma bebida relacionada à energia e à alimentação propriamente dita enquanto o vinho estava relacionado ao relaxamento ao gozo do ócio. Com a entrada na vida “da noite” a cerveja era o item mais barato do cardápio que podia preencher os espaços entre uma música e outra, ou lubrificar uma conversa. Ligando os pontos, ela firmou-se como coadjuvante e eu me tornei um consumidor eventual de cervejas comerciais. Tive oportunidades anteriores de experimentar algumas cervejas diferentes, em 97 estive por um período maior na Bélgica onde realmente conseguia sentir a diferença entre o que eu tomava aqui e aquilo que estava tomando lá, hoje entendo que essa foi uma experiência crucial mas grosso modo e sem contexto, naquele tempo no geral parecia tudo apenas mais amargo e bem mais caro.

O interesse por cervejas especiais surgiu há cerca de seis anos quando minha irmã mais velha começou a namorar seu agora marido: Zé. Zé é descendente de alemães, um homem grande e de personalidade leve. Este sim com cultura e gosto por cervejas, começou introduzir em casa algumas cervejas especiais (marcas como Duvel, Coruja e Black Princess, por exemplo) que acabaram por cair no meu gosto, ficando mais comuns ao palato e mais presentes na geladeira. Depois do falecimento de minha mãe em 2012 voltei a morar com meu pai em São Paulo, até mesmo como uma terapia para nós dois, começamos a falar em utilizar a ótima água que brota em nosso rancho leiteiro para fazer uma cerveja. “Eu ainda vou beber uma cerveja feita com essa água!” ele dizia quando estávamos lá. De fato, a fazenda fica na Serra de Cunha, um lugar caudaloso e com fontes de ótima qualidade. Nosso terreno, um pequeno vale, resguarda três nascentes com características bem peculiares e com águas mais ou menos alcalinas. Sem frescura, água boa, leve e potável. Na antiguidade uma oferta de confiança era disponibilizar a um visitante a “água da sua casa” (que por sua vez depois virou o “vinho da casa”); o costume era generalizado, em alguns lugares, sacralizado, um grande sinal de amizade; outra coisa são as propriedades “mágicas” de algumas fontes, na longa duração, acho que essas tradições se enraizaram de alguma forma, logo gostamos de beber de bicas, mesmo que não admitamos, aquelas águas que brotam da terra fazem bem, imaginem que além de água é também uma fonte de orgulho ter em seu terreno uma boa nascente. Tá, mas a água não faz diferença! Água é um mito criado pelas malvadas grandes e capitalistas cervejarias para vender lotes “especiais” de cerveja de água benta de Ximbiquinha da Serra, que nada mais é que água da Sabesp fervida, para enganar a manada de bebedores de mingau de arroz e milho! Tanto faz! Não estou falando disso, caso ainda não tenha ficado claro, o teor deste texto é subjetivo, emocional. Coisas feitas com amor e significado. Na minha opinião, esta é a diferença e a maior riqueza da produção artesanal de qualquer coisa: da cerveja do pai e do filho que escolheram isso para idealizar outra coisa após um momento péssimo para ambos, mais ainda, com a água que brota do lugar que pai e mãe construíram e amaram juntos? Graças à gentileza do amigo e cervejeiro Marcelo que se dispôs a utilizar esse produto da fazenda, realizamos o desejo de “tomar uma cerveja daquela água” após a produção de uma excelente Belgian Blonde no início de 2014. Isso certamente foi essencial na decisão que veio a seguir, de que eu fizesse um curso de produção artesanal para logo depois realizarmos nossa 1ª brassagem, cheia de erros e adaptações, mas que resultou em uma APA leve, que fermentou muito lentamente, de espuma curta e densa e sabor adocicado e reconfortante.

 

 

Há pouco finalizamos nossa segunda brassagem que no momento que escrevo está borbulhando no air lock no subsolo escuro e fresco da nossa casa, tenho certeza que estará melhor que a primeira, pois a segurança e significado ampliaram-se enormemente. Imprimimos sentimento a tudo o que fazemos, quando há um sentido, a sensação de recompensa é automática. Não me tornei um cervejeiro caseiro por aptidão, sequer tenho bom paladar para cerveja ou sou grande conhecedor de estilos, sequer me importo em saber quanto de álcool, qual o IBU ou se a cor confere com a da tabela. Tornei-me um porque é muito bom, porque deu-me coisas interessantíssimas para pensar e oportunidades únicas de aprender a respeito do processo em si e a meu próprio respeito. Daniel Viviani – Pai coruja, chato de galochas, historiador por formação, administrador por profissão. Principais interesses acadêmicos: História Medieval e História dos Alimentos Outros interesses: Escritor independente com 2 livros publicados e mais uns tantos inéditos, videogames, música, comida e Nápoles. Cervejas favoritas: American Wheat Urbana Boo!, Sumeria German Pilsner, Burgman Red Ale.

 

Daniel Viviani

Sou gestor de serviços administrativos na empresa NTK Solutions LTDA que desenvolve tecnologias para pagamentos. Cuido de processos internos, como inventário, pagamentos internacionais, estruturação normativa... coisas burocráticas.

Confira meu perfil no Skook: http://www.skoob.com.br/autor/7886-daniel-viviani

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